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Dar às mulheres acesso às ondas

Kady Souley Boncano, Niger “Houve anos em que muitos nigerianos experimentaram problemas até aí desconhecidos. Havia constantemente greves e salários não pagos”, explica Kady Souley Boncano. “A minha mãe trabalhava num banco e tihna quatro filhos por criar sozinha; eu tive que deixar de estudar no quinto ano”.
Mas a abertura democrática ofereceu novas perspectivas a Kady Souley Boncano. “Depois da conferência nacional (sobre o futuro político do Níger), os partidos políticos foram autorizados a assentar-se e a primeira emissora de rádio privado começou a funcionar. Em janeiro de 1995, ouvi dizer que uma segunda emissora privada, a Rádio Anfani, recrutava. Fui a primeira candidata e passei os testes com 15 outros candidatos; alguns, até tinham mestrado. Fui a única que passou os testes com sucesso e tive que começar imediatamente o meu novo emprego. Foi assim que, cada dia, ia para a emissora”.

A emissora foi criada para promover o desenvolvimento social, a saúde e a educação. Como retransmitía as informações dadas pela Voice of America, a BBC e a Radio DeutscheWelle, tornou-se rapidamente a primeira fonte de informações do país.

“Era ge-nial!”, exclamava ela insistindo sobre cada sílaba e sorrindo ao lembrar-se deste arranque antes impetuoso. “Virei estrela no espaço duma semana, talvez porque eu dava algumas mostras de coragem e usava palavras certas – mas também porque a rádio privada era um fenómeno realmente novo. Criamos um programa de chamadas telefônicas que deu aos ouvintes a oportunidade de falr no rádio pela primeira vez”.

A popularidade de Kady Souley Boncano vinha do fato que, inocentemente, falava dos problemas relativos à juventude e à mulheres. Com efeito, num país em que actualmente, só consta uma mulher no parlamento, o seu programa bissemanal “A Senhora tem a palavra”, bulia profundamente, o coração de qualquer um. Kady Souley Boncano era igualmente a Secretaria Geral supleente da secção nigeriana da Associação das profissionais africanas da comunicação.

“Para as mulheres, é ainda difícil de organizar-se e de defender efectivamente os seus direitos”. Hoje em dia, cerca de 60 mulheres trabalham na emissora, seja um pouco mais de 10% dos efectivos de todas as mídias. É de lembrar que as mulheres representam 51% da população”.

“O grande desafio das mulheres, no Niger, é criar um quadro propício à aplicação dos seus direitos. A este respeito, é importante que seja plenamente ratificada a Conveção internacional sobre a eliminação de qualquer forma de discriminação para com as mulheres (CEDAW). O Niger ratificou a convenção com algumas ressalvas, a saber: segundo os dirigentes actuais, no contexto islâmico do país, certos aspectos propostos na Convenção não poderiam ser aceites pela população. Uma mulher, jornalista, que promovia a convenção foi violentamente censurada por grupos islâmicos radicais que a obrigaram a abandonar a sua acção. Devo tratar estas questões com muito cuidado. Os grupos radicais são capazes de tudo. Olha o que está acontecendo na Nigéria que tem, aliás uma fronteira muito porosa em matéria de idéias”.

O Islão fundamentalista conseguiu desenvolver-se no Niger graças às mesmas leis, resultando da conferência nacional, que regem a liberdade de associação e que acabam com a regra do partido único. Mas o Islão militante fica moderado no Niger que partilha com o Burkina Faso e o Mali um islão tolerante. Na maioria dos países oeste-africanos, as mulheres devem confrontar-se, nomeadamente na aplicação dos seus direitos, às tradições culturais que, frequentemente interfere com a religião.

Os defensores dos direitos da mulher devem igualmente encarar o governo. “Quando se levanta questões relativas à mulher, fala-se de política porque, no Niger, só a política pode impulsar a emancipação das mulheres. Para a autonomia visto que tentamos iniciar um debate pelo qual o público poderá participar da promoção das mulheres e agir no quadro dum movimento político.

“Não tive directamente problemas com o governo mas houve uma pressão permanente. Por exemplo, às vezes trabalho com o governo. Se tencionasse dizer certas coisas desagradáveis, melhor procurar por outra profissão pois, até poderiam envolver a minha familia”.

O seu comentário sobre o envolvimento da sua familia não era uma mera questão de estilo. Desde que o primeiro presidente democraticamente eleito no país, Mahamane Ousmane, foi derrubado por um golpe de Estado em 1996, as autoridades não deixaram de fustigar a Rádio Anfani pela sua franqueza de linguagem. Durante o regime militar do sucessor de Ousmane, Ibrahim Baré Maïnassara, soldados investiram a emissora, prenderam jornalistas e até raptaram o director Gremah Boucar. Depois do assassinato de Maïnassara em 1996, o coronel reformado Mamadou Tandja ganhou eleições que os observadores disseram de livres e tranparentes.

“Depois das eleições, muitos pensavam que estaria livre”, conta Kady Souley Boucano. Em vez disso, a sociedade civil foi ameaçada e perseguida por difamação por tribunais manipulados. Três anos depois da volta do poder democrático, o Estado fez tudo para guardar sob o seu controle a imprensa e a sociedade civil (ver o encarte relativo à liberdade de expressão).

Ainda que a liberdade da imprensa e a democracia fiquem frágeis, a rádio privada conheceu um grande desenvolvimento durante os oito últimos anos. Arádio Anfani difunde hoje em dia com mais de quatro emissoras; cobre assim cerca de 75% da população do Niger que conta 9 milhões de habitantes. Não é a única emissora. “Hoje, devemos encarar a concorrência. Existe pelo menos 10 emissoras de rádio privadas e 20 emissoras de rádio comunitárias no Niger” explicou ela.

Até uma mulher abriu a sua própria emissora. É uma emissora privada da qual 80% dos programas são dedicadas à promoção das questões relativas às mulheres. É uma grande profissional que trabalhou na televisão e no rádio e que financiou a sua emissora com o próprio dinheiro. Quando as autoridades encerregadas da regulação ameaçaram de fechar a sua rádio, com o pretexto de que a licença provisória tinha vencido, as mulheres forma andando até a rádio para manifestar-lhe a sua solidariedade. Continua a sua luta e é um bom modelo para nós, mulheres da segunda geração”.

“Infelizmente, a rádio nem sempre contribui na consolidação da sociedade. Por exemplo, muitas emissoras comunitárias só transmitem sermões, só difundem programas islâmicos ou cristãos. O Estado não dá lecença às rádios confissionais mas as associações produzem programas religiosos emitidos pela rádio comunitária. Uma emissora comunitária deveria estreitar os laços existentes dentro da comunidade mas esta frequentemente se parece com uma comunidade onde os indivíduos nem sempre percepem a sua responsabilidade no desenvolvimento da sociedade.

“Visitei emissoras comunitárias pelo país. As populações que residem nas regiões distantes gostam de escutar a rádio mas nem sempres percebem que a rádio comunitária é uma força em acção. Acho que, qualquer dia, será uma evidência”.

Entretanto, Kady Souley Boucana e as outras seguirão encarando os obstáculos. “Não agimos por dinheiro” disse ela numa gargalhada. “ Agimos para abrir o espírito. Para nós, falar no rádio e dirigir-nós a outros é um prazer excepcional”.